Você sabia que uma série de sintomas que prejudicam a qualidade de vida, como fadiga, dores musculares, alterações de humor e memória, enxaqueca, acne e mudanças intestinais podem ser causadas pela inflamação crônica de baixo grau?
Esse tipo de inflamação é diferente daquela que nosso corpo pode desenvolver em resposta a uma determinada lesão ou infecção. Ela é uma ativação contínua e sutil do sistema imunológico que pode impactar sua energia e bem-estar dia após dia.
Neste artigo, vamos explorar a ciência por trás do “corpo inflamado” e o que sua alimentação têm a ver com isso.
Leia até o final para compreender como a dieta moderna favorece esse processo e como estratégias nutricionais adequadas podem ser a resposta que você procura para a pergunta: “como desinflamar o corpo depois das férias de fim de ano?”
O que você vai ler neste artigo?
- O que é a inflamação crônica de baixo grau?
- Quais as consequências de um corpo inflamado?
- Dieta: um gatilho para a informação crônica
- O efeito das festas e férias na inflamação do corpo
- Dieta anti-inflamatória: estratégias nutricionais com base científica
- Os 6 pilares da Dieta Mediterrânea: uma estratégia anti-inflamatória
- Conclusão
O que é inflamação crônica de baixo grau?
Quando pensamos em inflamação, a imagem mais comum que vem à mente é aquela de vermelhidão, inchaço, calor ou dor em determinada parte do corpo após um corte ou infecção. Mas esse tipo de inflamação é uma reação protetora fundamental do nosso sistema imune, que age para reparar tecidos e eliminar patógenos. Quando cumpre sua missão, esse tipo de resposta se autolimita e o corpo volta ao normal.
A inflamação crônica de baixo grau é um processo diferente. Ela se caracteriza por uma ativação contínua do sistema imune inato, mesmo sem uma ameaça imediata (como um ferimento, por exemplo). Ela ativa algumas vias moleculares, como a NF-κB e inflamassoma NLRP3, que ficam funcionando permanentemente, levando à produção constante de citocinas pró-inflamatórias, como TNF-alfa e interleucina-6.
Essa sopa de letrinhas pode parecer confusa, mas o importante é saber que essas alterações podem trazer diversas complicações de saúde e devem ser evitadas.
Quais as consequências de um corpo inflamado?
A inflamação crônica pode ter sintomas silenciosos, que podem ser vistos como uma consequência natural do estresse cotidiano, como cansaço, dor de cabeça, mudanças de humor, esquecimentos etc.
No entanto, eles podem esconder um quadro de alto impacto na saúde geral, que aumenta o risco para desenvolvimento de diversas doenças graves.
Entre as principais consequências sistêmicas do corpo inflamado, podemos destacar:
- Resistência à insulina: aumenta o risco para diabetes tipo 2, síndrome metabólica e doenças cardiovasculares;
- Disfunção endotelial: aumenta o risco de aterosclerose, hipertensão arterial, infarto e AVC;
- Fadiga persistente: pode afetar gravemente a capacidade funcional e cognitiva, podendo levar até mesmo à depressão clínica;
- Maior estresse oxidativo mitocondrial: acelera o envelhecimento celular e aumenta o risco para doenças neurodegenerativas, como Alzheimer e Parkinson.
Dieta: um gatilho para a inflamação crônica
Aquilo que comemos influencia diretamente o estado inflamatório do corpo. Por isso, alguns padrões alimentares modernos, com muitos alimentos ultraprocessados, açúcares refinados, farinhas brancas, gorduras trans e um excesso de óleos ricos em ômega-6 (como os de soja e milho), têm tudo a ver com o corpo inflamado.
Esses tipos de alimentos promovem picos de glicemia, lipotoxicidade (o efeito tóxico do excesso de gordura nas células) e estresse oxidativo. Com isso, ativam receptores imunológicos como os TLR4 (Toll-like receptors 4), que disparam os mecanismos de inflamação do corpo.
Além disso, uma dieta pró-inflamatória impacta negativamente a microbiota intestinal. Ela favorece a disbiose — um desequilíbrio entre as bactérias benéficas e prejudiciais — e aumenta a permeabilidade intestinal. Com o intestino mais permeável, lipopolissacarídeos bacterianos passam para a corrente sanguínea (endotoxemia metabólica). Essa é uma das vias mais bem descritas pela ciência com um elo entre dieta, inflamação sistêmica e doenças crônicas.
O efeito das festas e férias na inflamação do corpo
“Como desinflamar o corpo?”, essa é uma pergunta que muita gente faz a si mesma no início do ano, após as Festas, ou mesmo ao retornar de uma viagem de férias. Mesmo sem conhecer a teoria da inflamação crônica de baixo grau, sente um certo desequilíbrio, que pode se manifestar na forma de alguns sintomas que já vimos antes aqui neste artigo.
Períodos festivos ou de excessos são ótimos exemplos práticos de como a alimentação pode sobrecarregar o metabolismo.
A combinação de excesso calórico, maior consumo de álcool, menor consumo de fibras e sono irregular cria um ambiente metabólico altamente inflamatório. O resultado pode ir além de uma retenção de líquidos ou de alguns quilos a mais, uma resposta inflamatória sistêmica pode acontecer.
Essa resposta pode, inclusive, ser medida por marcadores sanguíneos como a Proteína C Reativa (PCR) ultrassensível.
Dieta anti-inflamatória: estratégias nutricionais com base científica
Assim como nossa alimentação pode ser um gatilho para a inflamação crônica, ela também pode ser a solução para esse quadro.
Uma nutrição de características anti-inflamatórias (o que se conhece popularmente como dieta anti-inflamatória) é uma abordagem eficiente, baseada em décadas de pesquisas científicas rigorosas.
Existem padrões alimentares, como a Dieta Mediterrânea, que demonstram consistentemente a capacidade de reduzir marcadores inflamatórios e melhorar a saúde geral.
O grande segredo desse padrão alimentar, e de outros igualmente saudáveis, não está em restrições severas, mas na sinergia entre nutrientes, fibras e compostos bioativos encontrados em alimentos minimamente processados.
Os 6 pilares da Dieta Mediterrânea, uma estratégia anti-inflamatória
1 – Rica em polifenóis e antioxidantes
Modulam a expressão de genes inflamatórios, ajudam a neutralizar radicais livres e protegem as células contra o estresse oxidativo. Estão presentes nas frutas vermelhas, cítricas, uvas, vegetais de folhas verdes, tomate, cebola e brócolis, entre outros. As oleaginosas e sementes (nozes, amêndoas, avelãs, linhaça, chia) também fornecem polifenóis, magnésio e compostos antioxidantes.
2 – Rica em fibras fermentáveis
Fundamentais para nutrir a microbiota intestinal, que produz ácidos graxos de cadeia curta como o butirato. O butirato tem ação anti-inflamatória direta no intestino, reduzindo a permeabilidade intestinal e a endotoxemia metabólica (escape de fragmentos bacterianos do interior do intestino para a corrente sanguínea). Alimentos ricos nesse tipo de fibras: aveia, quinua, amaranto, leguminosas (feijão, lentilha, grão-de-bico).
3 – Privilegia gorduras monoinsaturadas
O azeite de oliva é a principal fonte de gordura nesse padrão alimentar. Rico em compostos fenólicos, como o oleocanthal, ele exerce efeitos semelhantes ao de anti-inflamatórios não estereoidais livres. Melhora a função endotelial e reduz o estresse oxidativo.
4 – É rica em ômega 3 (EPA e DHA)
Esse tipo de ácido graxo poli-insaturado substitui mediadores inflamatórios por resolvinas e protectinas, moléculas que participam ativamente da resolução da inflamação metabólica associada à resistência à insulina e obesidade. As fontes principais são peixes como sardinha, salmão e cavala, além de sementes de linhaça e chia. Além de suplementos com doses altamente concentradas.
5 – Compostos bioativos
Tem ação anti-inflamatória, antimicrobiana e moduladora da microbiota intestinal. Ervas, especiarias e temperos tradicionalmente utilizados na culinária mediterrânea, como alho, cebola, alecrim, orégano e manjericão, são ótimas fontes. O alho, por exemplo, contém compostos sulfurados capazes de reduzir a produção de citocinas pró-inflamatórias.
6 – Contém probióticos
Esse tipo de alimento contribui para a diversidade da microbiota intestinal e para a integridade da barreira intestinal, reduzindo estímulos inflamatórios sistêmicos. O consumo moderado de laticínios fermentados, como o iogurte natural, é um caminho interessante para incorporar probióticos à rotina alimentar.
O começo de um novo ciclo, como o início do ano, pode ser um ótimo momento para agir na desinflamação do corpo. Adotar uma estratégia nutricional anti-inflamatória, mesmo que gradual, pode trazer resultados notáveis em poucas semanas.
Conclusão
A inflamação crônica de baixo grau é um estado que amplia o risco para diversas doenças, além de provocar sintomas que prejudicam bastante a qualidade de vida, como fadiga, humor alterado, dores de cabeça, entre outros.
Se por um lado, o padrão alimentar da vida moderna, rico em ultraprocessados e açúcares, é um fator decisivo para induzir à inflamação do corpo, a boa nutrição é a chave para mudar essa situação.
Os pilares da chamada Dieta Mediterrânea são um excelente exemplo de nutrição anti-inflamatória. Mas esse tipo de abordagem não deve ser encarado como um “detox momentâneo”.
A alimentação atua como um sinal biológico contínuo. Iniciar um ciclo de nutrição para desinflamar o corpo não é uma intervenção sazonal e sim uma decisão de saúde de longo prazo.
FAQ: Perguntas Frequentes sobre corpo inflamado
1. Quanto tempo leva para desinflamar o corpo com a dieta?
Embora a resposta seja individual, muitas pessoas começam a sentir melhora nos sintomas como inchaço e fadiga entre 1 e 2 semanas. Marcadores sanguíneos de inflamação podem mostrar melhora significativa após um período de 4 a 6 semanas adotando uma dieta anti-inflamatória consistente.
2. Preciso cortar o glúten e a lactose para desinflamar?
Não necessariamente. A sensibilidade ao glúten e à lactose é uma questão individual. Para a maioria das pessoas, o foco deve ser a redução de alimentos ultraprocessados e açúcares refinados (muito comuns no padrão alimentar da vida moderna), e no aumento do consumo de alimentos integrais e naturais. Se houver suspeita de sensibilidade ao glúten ou à lactose, a exclusão deve ser considerada. Mas o primeiro passo é buscar orientação individualizada com nutricionista ou médico.
3. Café é inflamatório ou anti-inflamatório?
A ciência mostra que o café, consumido com moderação, pode ser mais anti-inflamatório do que o contrário para a maior parte das pessoas. Isso porque ele é rico em polifenóis e antioxidantes. Mas há uma ressalva: além de evitar o excesso, os benefícios do café são sentidos quando ele é consumido sem açúcar.
4. Quais suplementos podem ajudar na inflamação?
Uma dieta anti-inflamatória é a base. No entanto, alguns suplementos podem ser aliados valiosos, como o ômega-3 (EPA/DHA), a curcumina (de alta absorção), o magnésio e a vitamina D (se houver deficiência). Consulte sempre um profissional de saúde para realizar uma suplementação eficiente, segura e adequada às suas necessidades individuais.
Referências bibliográficas:
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